A escolha de um livro

Com exceção dos livros obrigatórios da faculdade, eu começo a desconfiar que aquele clichê de “não escolher e ser escolhida” também funciona com livros. O que acontece é o seguinte: em média sempre tenho quatro livros para ler e a escolha de tais é algo totalmente inexplicável. Algumas vezes chego a ler a primeira página de cada um e na dúvida acabo lendo um outro livro, ou que comprei, ou que ganhei, ou que, num estalo eu disse “agora é esse”. E a surpresa acontece quando em determinado momento do livro (que no geral não tem ligação direta com o meu jeito de viver) eu aprendo algo sobre a minha vida e, detalhe importante: eu não leio auto-ajuda, eu leio romances modernos e algumas poesias. E o aprendizado vem como um presente lindo, embrulhado com papel sofisticado, com fita de cetim e todos os adornos e sensações causadas pelo presente sem data especial. É a vida respondendo o que você quer através da arte.

Alguns podem dizer que é normal, afinal, a obra de arte está aí justamente para nos fazer aprender, e sentir, e amar. Mas não é para ficar realmente embasbacada quando a resposta para o que você quer está justamente num livro de ficção? Naquele livro que você resolveu ler porque gostou da capa? Achou o prefácio interessante? É do seu escritor preferido? Comprou numa promoção? Ganhou de uma pessoa especial? Eu posso estar exagerando, mas são essas pequenas coisas do cotidiano que me permitem acreditar em algo além do nosso controle, mas que mora no nosso subconsciente que, sei lá como, faz da vida uma corrente de histórias que amarra a realidade e a arte. A minha realidade com a sua, as minhas diferenças com as diferenças do mundo, a minha vida e um livro.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

4 Comentários
  1. todas as vidas dão um livro. Que história não merece ser contada? Como filtrar a arte e sorver sua maior essência ? Entregar ao acaso , ao destino , à Deus , a alguma coisa superiora e invisivel, indizivel que nos conecta …

  2. É realmente muito interessante o modo da(s) (hm, vida?) coisas falarem conosco. Dificilmente algo acontece por acaso. É assim que eu vejo. Imagine agora se a arte fosse completamente desconexa com todos e tudo?
    Arte não é, apenas, algo do nosso simples plano.

    Lindo : *

  3. Isso tem acontecido com frequência comigo também, o que acaba sendo uma surpresa fantástica. Comecei a ler A montanha mágica, do Thomas Mann, quando estava trabalhando num abrigo para crianças e nessa época eu tinha que acompanhar uma das crianças que estava internada no hospital. Nossa, o tempo não passava naquele lugar, era uma mistura de cansaço, sofrimento (pelo estado da criança) e sentimento de impotência contra toda aquela situação, e principalmente contra o tempo. E para minha suspresa o livro fala muito do tempo, do conceito que temos dele, de como é complicado ter um conceito de tempo e etc, parecia que o livro estava falando comigo, bem loco! =)
    Bem legal seu blog! Ah obrigada pela visita e pelo comentário =)
    abraço!

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