Precisamos Falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver

A vida ganha uma encruzilhada cada vez que é preciso decidir alguma coisa. Chovia muito, o telefone não funcionava e Eva em sua casa, à espera do marido que estava muito atrasado ao ponto dela pensar que algo terrível tinha acontecido ao amor de sua vida. Ele demora, ele demora; e quando chega ela sente novamente a felicidade – que foi perdida na encruzilhada da escolha – ter ou não um filho. Ela decide ter o filho naquela noite. Decide por amor ao marido? Por querer ser mãe? Ou por que queria sair da encruzilhada? Ela queria sair da encruzilhada.

Eva era uma mulher americana, independente e feliz com o seu casamento e profissão até o momento em que resolve ter um filho, o Kevin que, aos 17 anos, realiza um massacre na escola. A partir daí Eva escreve cartas ao marido Franklin onde confessa, através de relatos cheios de detalhes e muita sinceridade, os momentos em que considerou o marido um babaca, que ela não amava Kevin e que queria sua vida sem filhos de volta:

Franklin, eu nunca me dera conta de quanta energia você gastava para manter a ficção de que, em linhas gerais, éramos uma família feliz, cujos problemas banais e transitórios só faziam tornar a vida mais interessante. Talvez toda a família tenha um membro cuja tarefa principal é fabricar essa embalagem atraente. Como quer que fosse, você havia renunciado abruptamente. De um modo ou de outro, já visitáramos essa conversa inúmeras vezes, com a lealdade habitual que faz outros casais irem para a mesma casa de férias todo verão. Mas, em algum momento, esses casais têm que olhar para sua casa de campo, dolorosamente conhecida, e admitir um para o outro: No ano que vem, teremos que experimentar outra coisa. (p. 403)

A escritora Lionel Shriver não deve ter escolhido o nome de Eva à toa: Eva, aquela que comete o grande erro, que pega a maça: “Eu nunca havia desejado, de maneira tão plena e consciente, nunca ter parido o nosso filho. (…) Mas teria que viver. Eu havia criado minha própria Outra, que, por acaso, era um menino.” (p. 404) A princípio, talvez, seja impossível gostar de Eva, pois parece que ela fez tudo errado, mas no desenrolar da história – que ela mesma conta através das cartas – é possível uma grande afeição por ela. Eva é uma mulher orgulhosa e quando ela se vê em situações que, pelo que todos dizem, ela deveria sentir-se mãe, ela não sente nada. E toda a história dela com o Kevin é uma busca por querer ser mãe e não conseguir, simplesmente porque ela não sente e não se engana com isso, diferente do pai que finge que a família é perfeita. Eva assombra a vida dele quando afirma que Kevin é uma criança incomum, as situações em que ele apronta são complicadas, fortes e macabras, mas o pai acredita que é coisa de adolescente e implicância de Eva.

Lionel Shriver poderia cair no comum, utilizando fatos que ocorreram nos EUA para vender sua história, mas em nenhum momento ela trilha nesse perigoso caminho, o livro Precisamos Falar Sobre o Kevin é uma história sobre aceitar sentimentos e a falta deles. É um livro muito sincero, honesto, denso e envolvente. Porém, o mais difícil mesmo é conseguir falar sobre o Kevin e a personagem Eva caminha nessa estreita estrada nas 463 páginas do livro, tentando buscar um motivo, um sentimento, tanto dela quanto de Kevin.

Talvez os grandes mestres da psiquiatria, os grandes psicólogos, terapeutas ou sabe-se lá quem mais, desvendem a mente de um assassino e mostrem onde tudo começa e o mais importante: se um dia termina. Kevin é uma pessoa fria, calculista, cínica, e manipuladora. Com o pai, Kevin se comporta exatamente da maneira que Franklin deseja: um filho que acha o máximo tudo o que o pai diz e faz. Com a mãe ele não usa máscaras, e mostra todo o seu lado exibicionista cruel que torna a relação dos dois muito complicada, sem carinho, apesar de verdadeira. O impasse de Eva é: por que ele é assim? O livro é perturbador, Lionel Shriver tem uma escrita poderosa que nos faz pensar muito sobre o papel da família, a violência nas escolas e a maternidade.

A autora é americana, nasceu em maio de 1957 com o nome de Margaret Ann Shriver, mas ela quis mudar para Lionel por achar este nome mais sonoro. Precisamos Falar sobre o Kevin foi recusado por vários agentes literários e mais de 30 editoras, mas hoje é um livro premiado, traduzido em diversos países e vai ganhar uma versão no cinema.


Onde comprar o livro Precisamos Falar Sobre o Kevin: Amazon

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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9 comentários

  1. […] Shriver é uma escritora americana, que ficou muito conhecida pelo romance Precisamos Falar Sobre o Kevin, que foi o primeiro livro que li dela. Depois, por eu ter colocado esse livro na lista dos melhores […]

  2. Meu livro tem a capa do filme. AO MENOS é a Tilda nela.

  3. […] por seu comentado e bem-criticado romance epistolar “Precisamos Falar sobre o Kevin”, Lionel Shriver é o tipo de escritora que não cria personagens doces e simpáticos, que estão […]

  4. […] fama mundial aconteceu com o livro Precisamos Falar Sobre o Kevin, que neste ano teve uma versão para o cinema, onde ela retrata a mãe de um assassino de apenas 17 […]

  5. […] mês de fevereiro trouxe ao blog três resenhas que adorei fazer, como também amei os livros: Precisamos Falar sobre o Kevin, da americana Lionel Shriver, A Viagem, de Virginia Woolf e O Hobbit, de J. R.R. Tolkien. Brinquei […]

  6. Adorei a resenha, as analises são muito bem construidas. E felizmente compartilhamos da mesma opinião a respeito deste livro. A autora realmente soube ser audáciosa e obter êxito, espero que continue assim com seus livros. Eu raramente digo que certo autor é meu favorito por apenas ler uma de suas obras, Lionel foi a primeira excessão.

  7. Fran, parabéns por mais este passo adiante com o seu blog, que agora é “.com”! Eu já te disse tudo que achei sobre a sua resenha, mas vou deixar registrado aqui para os seus leitores 🙂 Achei seu texto muito profissional e ao ler a gente sente muita vontade de ler o livro. Este livro engloba um tema é bem atual, amplamente discutido nos dias de hoje, principalmente no meio psicológico e este olhar voltado para a família de um psicopata (que nesse caso ainda é um adolescente e nem poderia ser diagnosticado assim), seus sentimentos e comportamementos com relação a ele e o quanto isso interfere ou não na formação de sua personalidade é sem dúvida um plus. Eu já tinha até pegado este livro numa livraria para olhar, mas só depois da sua resenha me convenci a ler porque antes, achei que este era só mais um livro sobre atentados em escola rs. Beijos.

  8. […] This post was mentioned on Twitter by Fernanda Sampaio and literariamente, Francine Ramos. Francine Ramos said: Minha resenha de "Precisamos Falar Sobre o Kevin": http://is.gd/cyAudk […]

  9. É um tema pesado e triste. Um pesadelo mesmo uma mae parir um filho psicopata- assassino. Culpa, dor, uma mae dessas deve sentir tudo de ruim, principalmente porque ela nao queria ser mae.

    Interessante o livro e a resenha,

    beijos e muito sucesso com o novo endereço!

    Fernanda

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