Diário de Leitura Mrs Dalloway #4 Falando em grego

Virginia Woolf gostava da Grécia, tanto do país em si, como da língua grega. Estudou a língua e viajou para a Grécia. Porém, em uma de suas alucinações, tinha total convicção de ouvir os pássaros cantando em grego. No romance Mrs Dalloway, a língua grega aparece por meio do personagem Septimus, que beira a loucura; que vive num mundo particular – interessante para ele, estranho para quem o vê parado, olhando para o nada, num banco qualquer de Londres.

“Os homens não devem derrubar árvores. Existe um Deus.
(Ele anotava essas revelações no verso de envelopes.) Mudem o mundo. Ninguém mata por ódio. Faça com que o saibam (ele anotou). Ele esperava. Ele escutava. Um pardal, empoleirado na grade da cerca em frente, chilreou Septimus, Septimus, quatro ou cinco vezes seguidas e prosseguiu, prolongando suas notas, com frescor e estridência, em palavras gregas, como não existe nenhum crime e, reforçado por outro pardal, cantaram com vozes prolongadas e estridentes, em palavras gregas, desde árvores no prado da vida até o outro lado de um rio onde os mortos vagueiam, que não existe nenhuma morte.”

Septimus aparece no romance no momento em que Mrs Dalloway está comprando as flores, com o recurso do aeroplano e do suposto carro da rainha cruzando a cidade, Virginia Woolf tira o leitor do cenário da floricultura e o leva para as ruas de Londres e para algumas pessoas que, como Clarissa, observam o movimento da cidade. Ele está passeando com a sua mulher e sente vontade de se matar, porém, o que não o deixa concluir a tarefa macabra é a sua própria mente distraída.

Lucrezia Warren Smith, esposa de Septimus, tenta, sem sucesso, a todo momento, tirar o marido dos devaneios estranhos (por recomendação médica), mas parece que ela faz isso não para ajuda-lo, mas por não querer mostrar para as outras pessoas que o seu marido é louco.

A busca de Septimus é por alguma coisa que lhe dê segurança, não há uma frase clara sobre isso, é apenas a minha constatação, pois quando o texto de Virginia mostra os sentimentos de Septimus, revela uma grande profundidade de compreensão da vida, diferente do que é revelado pela personagem Lucrezia que, em vão, não consegue ajudar o marido, que, por ele, não há motivo para a ajuda, ele quer deixar sua mente livre até o fim, até descobrir alguma verdade, mesmo que estranha, mesmo que o preço seja a sua paz mental.

Mora um certo sentido de liberdade em Septimus, que é tirada pelas exigências de sua mulher, que pode representar as posturas que a sociedade crê ser certa e/ou errada. A forma como ela o faz voltar para a realidade é dizer “olha, olha…” e apontar para alguma coisa concreta:

 “Oh, olha”, implorou-lhe. Mas o que havia ali para olhar? Uns carneiros. Era só. (p.27)

 Faço as contas das vezes que presto mais atenção no carneiro do que em algo que realmente me fortaleça, me complete e me mantenha num sonho realizável. Olhar carneiros e ter à minha frente uma pessoa falando em grego. Tudo igual. Há coisas mais interessantes a fazer, não é?

Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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