Kindred – laços de sangue (Octavia E. Butler): o passado não está longe


Saraiva

Quando se fala em ficção científica, ainda é possível a nossa mente imaginar os cenários futuristas, as naves espaciais e roupas prateadas. Porém, quando lemos autores desse gênero, é possível ir muito além: quebrar estereótipos e muitas barreiras equivocadas, que sempre representam um único ponto de vista. Se sou guiada pela literatura, eu quero ser tirada de meus lugares confortáveis e desejo que a leitura me faça viajar para outros espaços, independente do estilo, técnica e assuntos abordados. Então, mas como a gente vive se sabotando e fazendo escolhas que ainda perpetuam preconceitos literários, quando iniciei a leitura do livro Kindred – laços de sangue, da escritora americana Octavia E. Butler, fui arrebatada logo no início e compreendi mais uma vez; e agradeci às Deusas por me tirarem de meu conforto literário, por me permitirem mais uma vez avançar rumo à consciência social, de classe e, principalmente, me colocar de frente ao racismo.

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Octavia E. Butler nasceu em 1947 nos EUA. Filha de pais muito pobres, a autora teve uma infância difícil, porém, conseguiu seu diploma universitário mesmo com a pobreza, o racismo e a dislexia. Aos 12 anos, viu um filme de ficção científica tão ruim que teve a certeza que poderia escrever algo melhor. E, para nossa sorte, a autora construiu uma carreira literária sólida, que deu a ela o título de “A grande dama da ficção científica”.

“Kindred – laços de sangue”, publicado em 1979, mas que só chegou aqui no Brasil em 2017, pela Editora Morro Branco, é um de seus grandes livros e ultrapassa qualquer barreira classificatória, pois está muito além de ficção científica: é um estudo sobre racismo, feminismo, machismo e ancestralidade.

A viagem no tempo

Dana, aos 26 anos, começa a sentir fortes dores de cabeça, de repente, desmaia e se vê em uma situação totalmente diferente de sua realidade. De uma casa típica dos anos 1970 para um espaço aberto, com árvores e um garoto se afogando em um lago. É essa a sua primeira viagem no tempo. Quando retorna, depois de quase morrer, tem certeza que vivenciou algo totalmente inexplicável, mas, de certa forma, ela é consumida pela certeza que sua experiência sem sentido irá acontecer de novo. Seu marido, que a viu desaparecer e reaparecer em segundos, compreende que realmente algo misterioso aconteceu, apesar de achar a história de sua esposa um tanto surreal.



Conforme a história de Dana vai se desenrolando – ela mesma narra sua trajetória -, fica mais evidente que ela está viajando no tempo e, o pior, ela, uma mulher negra, vai parar em uma fazenda no período da escravidão americana.

O que a faz viajar é um mistério ao longo da narrativa. Porém, como o título sugere, há laços familiares que a colocam naquele lugar. O menino se afogando no lago é parte importante da história de sua família e essencial para a sua própria existência e se mostra uma criança que precisava de amor. Mas, conforme o tempo passa, ele se torna um representante fiel do homem branco, violento, intimidador e mimado pela família e pela sociedade burguesa.

O presente, o passado e o futuro

Octavia Butler em sua biblioteca. Fonte: Nhpr

A narrativa de Butler tem um ritmo constante, que mantém a atenção do leitor do começo ao fim. Em certos momentos, tive que parar a leitura por tamanha violência e tamanha reflexão que a história de Dana me provocou. O racismo, que tanto falamos – e é preciso falar – que acontece hoje em dia, ainda é uma raiz presa ao passado, que se ramificou de tal forma que fica difícil saber como, de uma vez por todas, acabar com tanta barbaridade. Por outro lado, ao ler o romance, tão bem narrado, o leitor será capaz de pensar sobre essas questões que ainda ecoam em nossa sociedade patriarcal. O homem branco – sempre munido de seus direitos, sem perceber o quanto eles ferem a ética e a moral,  continua, muitas vezes, se comportando como aquele dono da fazenda escravocrata ou como filho de homem rico e poderoso que, por ter poder, dinheiro e privilégios, age como se fosse possível manipular e controlar todas as pessoas.

Acredito que a narrativa ficcional consegue atingir sua máxima quando não se explica, apenas expõe o universo da personagem, suas ações, pensamentos, consequências e tudo mais. E fica melhor ainda quando personagens contêm elementos dúbios, que os tornam mais humanos. Nem todo mundo é mal, nem todo mundo é bom. E nessa troca de perspectiva, o leitor constrói junto de Dana uma nova relação com o seu passado (os donos de escravos e os escravos), o seu presente (o seu marido branco) e o seu futuro (incerto).

Os inícios

“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco.”
Octavia E. Butler”

Descobrir em qual lugar tudo começou, ou como começou, é uma máxima do ser humano, tanto na ciência, quanto na religião e também em outras esferas. De certa forma, todos estamos no mesmo barco para tentar entender de onde viemos, como surgiu o mundo, porque as coisas são assim ou assado etc.

Em Kindred, a pergunta sobre os inícios está relacionada aos comportamentos sociais. Onde começou o racismo? Onde começa a violência? Por que somos tão machistas? São respostas complicadíssimas e urgentes. A autora nos dá um norte com as situações em que Dana vivencia, tanto em sua vida nos aos 70, quanto nas suas viagens para o passado escravocrata.

Em certo momento, será possível compreender o quanto a vida de Dana está relacionada a esse passado tão distante. Por meio do personagem Rufus, que aparece como uma criança no início e se torna um homem violento e manipulador, essa questão sobre como as coisas começam e como a violência nos atinge fica mais clara. Chega a ser chocante a construção desse personagem que ainda representa tantas atitudes dos homens de hoje em dia. Tudo está lá, nos exemplos vistos e nas violências também sofridas.

Com um olhar mais atento, o leitor poderá perceber que em seu cotidiano o racismo e o machismo ainda se fazem presentes em situações já banalizadas, assim como um dia foi comum e dentro da lei o fato de seres humanos serem donos de outros seres humanos e escravizá-los e violentá-los.

Há, ainda, muito do que se falar sobre o livro de Butler. No entanto, a história de Dana é uma daquelas que sempre ficarão ecoando em nossos pensamentos. Após conhecer a vida dessa personagem e suas viagens no tempo, o leitor compreenderá que a sua própria ancestralidade está mais presente do que se imagina, querendo ou não.

Ainda estamos conectados com o passado, por cultura, por meios de viver em sociedade, pelo DNA e por tantas outras formas. De maneiras boas e ruins. A grande pergunta – além de onde tudo começou – é sobre o quanto conseguimos suportar e transformar nossas realidades.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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