O despertador tocou. A noite havia sido turbulenta, cheia de pesadelos e suores. A voz eletrônica anunciou que já eram 6 da manhã, hora de se levantar para cumprir a agenda eletrônica do dia. Sem que precisasse mover um dedo, as luzes se acenderam, o cobertor foi removido e a Grande Tela foi ligada no programa que todos deveriam assistir. Exercício matinal era televisionado todos os dias da semana, exatamente às 6h16. Os corpos deveriam ser tratados para que a mente permanecesse sã. Ao menos, era isso o que preconizava o Grande Filósofo, cujos pensamentos haviam sido atualizados e formatados para os tempos atuais. 2024. Este era o ano. Mas poderia ser 1949. Com o recrudescimento do conservadorismo diante da ameaça vermelha e com a abolição dos direitos humanos, Winston não sabia mais se vivia o tempo que lhe diziam ou se havia entrado em um máquina do tempo, rumo ao passado sombrio.

6h45. A instrutora de yoga eletrônica despedia-se e desejava um bom dia aos participantes dos exercícios respiratórios e meditativos, enquanto o cardápio matinal era atualizado. A bandeja disposta na frente de Winston dispunha a opção vegana do dia, composta por laticínios sem lactone, pães e bolos sem glúten, frutas sem frutose. O cardápio atual era um composto elaborado especialmente pelas indústrias mais avançadas em investigações alimentares e nutricionais. O consumo de carne e lactose havia sido proibido por um decreto lançado pelo Grande Ministro. Confiáveis estudos descobriram que a intoxicação do gado e de outros animais de corte havia sido propalada por espiões russos que vagavam pelos campos do país injetando líquidos mortais que levavam à morte pessoas que consumissem a carne louca. Também o açúcar e o café, por conterem toxinas letais ao funcionamento do cérebro, haviam sido excluídos da dieta. Serotonina, diziam, era o mal do século. Com sorte, era possível encontrar grãos selecionados de café e cacau em algum mercado negro. Era 2024. Mas poderia ser 1969. Talvez 1949?

7h00. Era o fim do período fixado para o café da manhã. Com os dedos na Grande Tela, Winston passava as notícias. Diante de seus olhos, imagens e palavras que anunciavam o fim da greve dos metroviários, o recomeço da guerra com as Andinas, e a construção do muro que finalmente garantiria a paz e a preservação da cidadania aos habitantes de Rapunzel. Uma notícia, entretanto, captou seu olhar. Morrera o Grande músico. A genialidade estampada em pequenas desobediências havia partido para outras esferas. A morte anunciada tinha letras minúsculas num Estado sitiado em que não se podia mais ousar. Ou pensar. Ou elaborar, pela linguagem, sonhos de outras eras. Toda ousadia, toda subversão, toda discordância era considerada um ato afrontoso ao Grande Filósofo e seus seguidores. Rapidamente, Winston deslizou os dedos pela Grande Tela. Mulheres anunciavam a moda para a nova estação em seus ternos bem recortados, de cores claras, com saias abaixo dos joelhos, o sorriso singelo e angelical nos rostos. Mulheres bem vestidas, fotografadas ao lado dos Grandes eletrodomésticos que deveriam ser a vida escolhida. Mulheres, cujos corpos cobertos davam o tom da nova estação. Winston sentia o calor subir pelo corpo. E na Grande Tela a notícia de que a maior floresta do mundo havia sido sabiamente explorada para o desenvolvimento da raça humana na Terra. Vendida pelo inexato preço do comprometimento de mil gerações. A estufa humana se inflamava e se infiltrava pelos dedos do Grande expectador que aplaudia a conquista do homem sob o Sol, o caminhar rumo a um futuro de verdes inexistentes, oferecendo o rosto aos raios infravermelhos escaldantes que irradiavam venenos infiltrados por espiões russos. Dizia a notícia que durante a Grande Guerra, os russos haviam pisado no sol. Era 2024. Mas poderia ser 2019. 1969 talvez?

Winston não o sabia. Tentou calcular sua idade. Desviou os dedos da Grande Tela. Apontou para o arquivo virtual que guardava os documentos. Deu o comando para que se abrisse a certidão de nascimento que lhe daria a verdade sobre os fatos. Repassou uma folha. Duas. Três. Enfim, a certidão de nascimento. O ano de seu nascimento, apagado. Não saberia dizer quantos anos tinha se fosse perguntado naquela entrevista de emprego para a qual se preparava. Tampouco se lembrava da última vez em que havia visto a data estampada na Grande Tela. Lembrou-se da caneta esferográfica eletrônica de tinta preta que usava para essas ocasiões. Poderia colocar ali 1969? 2009? Notariam as rugas ao redor dos seus olhos? Notariam seus cabelos brancos que emolduravam o rosto redondo? Não o sabia. A voz eletrônica anunciou que o documento estava atualizado com sucesso. Voltou os olhos para a Grande Tela. Outra notícia era apresentada. Anunciava-se que a vaga de emprego não mais existia. Havia sido retirada para implementar a conquista do homem na Terra. A agenda havia sido atualizada com sucesso. Winston deveria se vestir com a cor sóbria da estação, pegar seu chapéu que o protegia de um efeito estufa inexistente, e se dirigir para a Central de Seguridade Social, que garantia a segurança contra o social.

7h23. Winston estava pronto para sair. Mas não sabia para quê. Ou para onde. Caminhou rumo à cama para repousar os olhos, os dedos e o ventre das notícias que a Grande Tela lhe fornecera naquele dia. Sentou-se na cama e o choque eletrônico impulsionou-o para fora da casa. Viu-se trancado do lado de fora e a voz de Julia anunciando que deveria estar de volta precisamente às 16h42, quando as portas da casa seriam novamente abertas e o cardápio vespertino estaria disponível para consumo. Winston cruzou o portal central, e se pôs a seguir na rua cheia de corpos em movimento constante. Carros cruzavam com motoristas embriagados pelos comandos eletrônicos do Grande Guia de Direção, e pela voz incansável do Grande Filósofo que lhes lembrava que a virtude está a meio termo entre dois extremos. A atitude estoica adotada por todos encobria sentimentos reprimidos em nome da Grande Paz. Winston caminharia com rumo incerto, não fosse pelo Grande Mapa que reproduzia e atualizava instantaneamente a trajetória a seguir. A 4 km, vire à direita. Caminhe mais 3 km e vire à direita. A 6 km, vire à direita. Quando chegar à Rua dos Vigários, vire à direita. Winston seguiu o comando do Grande Mapa, virando constantemente à direita. Notou, entretanto, que passava constantemente pelos mesmos lugares. Encontrava-se no mesmo ponto, sempre virando a uma direita diversa. Seria ali a seguridade social? Não o sabia. A voz de Julia comunicava que o destino encontrava-se à direita. Winston parou. Aguardou o novo comando. Tocou os bolsos vazios e sentiu a carne magra. Olhou para a tela em busca de novas notícias sobre o futuro. Aquele futuro que haviam lhe dito que se realizaria. O futuro era hoje? 2024? Mas e se estivesse em 1969? Talvez 1949? Faltava muito para este futuro chegar? Chegaria um dia? Não o sabia.

Os portões se abriram e a voz eletrônica pediu a senha de acesso. 1984, disse Winston.

– Entre, e acomode-se à direita.

Winston seguiu o comando e acomodou-se à direita. Sentou no futton aéreo a espera de novas perspectivas. Na Grande Sala, rostos inexpressivos aguardavam. Bem vestidos, homens brancos da nova geração flutuavam em seus futons aéreos situados à direita. Com os olhos na Grande Tela, eram instantaneamente atualizados com novas notícias que tornavam o passado instantâneo. Winston fechou os olhos. Precisava descansar e se preparar para a entrevista com a seguridade social e descobrir qual o caminho a seguir, qual futuro estava a ele destinado. Fechou os olhos. O ritmo cardíaco diminuiu para preparar-lhe para adentrar no território do sono dos justos. Ouviu a voz de Julia informando que seus batimentos cardíacos haviam sido atualizados para manter-lhe alerta até a hora fixada para o repouso. Os olhos de Wilston foram abertos e postos na Grande Tela. Em frente, a notícia de que escolas e universidades não mais existiam. O Ministro anunciava que o contingenciamento deveria atingir todos aqueles com pretensões universais. Os Grandes expectadores aplaudiam essa nova conquista do homem na Terra da não-educação. E a voz do Grande Filósofo lhes lembrava que o Futuro estava garantido aos peregrinos da Terra tão logo o Grande Juízo chegasse. Winston acomodou-se à direita e aguardou que seu nome aparecesse na Grande Tela. Ainda gostaria de saber a idade que tinha e quanto tempo lhe restava antes do Grande Juízo. Não o sabia. 2024, diziam os jornais eletrônicos destituídos de datas.

Enquanto aguardava, lembrou-se do que O´Brien, já há muito desaparecido, lhe dissera. Em momentos como aquele, em que o futuro é um atualizar constante do passado, a melhor estratégia a ser adotada seria manter-se são e resgatar a confiança no indivíduo. Um a um. Um mais um. Até o que o futuro fosse novamente possível e estivesse com o rosto voltado adiante. Não ao anterior. Havia sido enganado? Estaria O´Brien já colocando em prática as determinações da NovaFala? Faltavam poucos anos para a entrada em vigor da NovaGramática que oficializava o DuploPensamento. Em 2050, poucas palavras restariam para expressar o pensamento e conformar a linguagem. Guerra é Paz, dizia o NovoDicionário; Escravidão é Liberdade; Trabalho é Desemprego; Educação é Deseducação; Universidade é Particularidade; Preservação é Destruição; Vida é Morte; Utopia é Distopia. Era o que pregavam os partidários da língua Ingsoc e do Grande Filósofo. E tantas outras Deslinguagens na terra em que a palavra já não dizia. Winston não sabia no que acreditar. E, no entanto, esta parecia ser a intenção daqueles para quem acreditar tornara-se um imperativo. Tinha-se que estar convencido com todo o coração, diziam. Mas Winston ainda não estava convencido. Sabia que escapara por um triz daquela bala destinada às suas costas.

– O momento chegará – diziam. – Deixe o Amor inundar seu coração. E a Vida chegará com a explosão de múltiplos fragmentos metálicos.

Novamente, a voz do Grande Filósofo cortou-lhe os pensamentos impuros: O inferno não são os outros, dizia. Ao homem revoltado, nada. Estaria Julia equivocada? Seria realmente melhor diluir-se em um mar de nada? Pelo menos, ali, não estaria sozinho, preso em sua própria existência. Mas não, tinha de esconder-se de seus próprios pensamentos antes que o alerta vermelho indicasse frequências ondulatórias de operações cerebrais.

– Winston Smith – anunciou a voz eletrônica saída da Grande Tela.

Winston levantou-se e foi conduzido para a porta à direita. Cruzou o portal. Submeteu-se aos scanners ultravermelhos. Sentou-se na cadeira. A tela se acendeu. Uma voz cuja tonalidade desconhecia perguntou-lhe se era Winston Smith. Para confirmar sua identidade, deveria soprar o ar vital na boca eletrônica e abrir bem os olhos para o reconhecimento da íris. Winston obedeceu. Deixou que os impulsos de identidade fossem transferidos para a atmosfera digital. Uma luz vermelha se acendeu, causando desconforto e confusão na visão periférica de Winston.

– Winston Smith, seu momento chegou e suas respostas serão respondidas. Encaminhe-se para a porta à direita e se deite na cama oferecida para que os aparelhos sejam ligados corretamente.

O que aquilo significava? Winston não o sabia! Mas não conseguia abrir a boca para perguntar as razões daquela entrevista. A boca silenciada tateava uma voz ausente. Conseguiria, finalmente, o emprego que lhe devolveria a dignidade que o Grande Filósofo havia defendido como recompensa àqueles empenhados em expandir o capital? A voz aspirada pela boca eletrônica agora ordenava-lhe que se dirigisse para a porta à direita. Winston bateu na porta. Ninguém respondeu. Winston cruzou o portal eletrônico que lhe escaneou as carnes magras, os bolsos vazios. À sua frente, a cama estava pronta, com lençóis de linho egípcio bem dispostos e as amarras que lhe garantiriam uma passagem segura para a Terra dos sem futuro. Winston se deitou. Num piscar de olhos as amarras foram apertadas em torno de seus punhos e de seus tornozelos. À distância, um barulho incerto. Parecia-lhe que mil ratos infiltravam-se pelos canos do esgoto conectados àqueles tubos de vidros. Seria agora que a tortura começaria? Sua voz eletrônica pronunciou que nunca havia existido tortura em seu país. Pessoas que nunca haviam existido não podiam desaparecer. Nem serem torturadas. Winston lembrou-se daquela visita que fizera, anos atrás, ao Departamento do Amor. Não havia sido submetido ali a horas intermináveis de tortura? Não vinha dali seu medo de ratos? Mantinha vivos na memória os detalhes de um prédio sem janelas em que o dia não terminava. As amarras mentais foram instaladas. O barulho intensificou-se. Sua voz eletrônica avisou que o procedimento seria iniciado. Winston estava pronto para o futuro que lhe havia sido reservado. Winston estava pronto para adentrar na Terra do Não-Amanhã…

 

Leia mais:

1984, de George Orwell

Playlist: o dia em que 1984 de Orwell chegou

Frases do livro 1984, de George Orwell

O Grande Inquisidor e o Grande Irmão: uma alerta à desumanização

O que é distopia?

 

* Imagem da capa: desenho produzido por Rossana Pinheiro-Jones, 2019.

Anúncio
Avatar
Rossana Pinheiro-Jones

Rossana Pinheiro-Jones é Doutora em História e Bacharel em Direito. Gosta de linhas, letras, gatos e café. Atualmente, vive em Londres com uma estante em busca de novos livros.

1 comentário

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado