Ser escritor dá dinheiro?

Ser escritor dá dinheiro?

Dinheiro é, infelizmente, uma coisa importante em nossa sociedade. Simplesmente não se vive sem. E, mesmo que você seja um minimalista, ou alguém desapegado e que despreza o consumismo, vai precisar de dinheiro.

Então, essa pergunta é muito justa. Ainda mais se você quer levar muito a sério a escrita.

Mas responder esta pergunta não é tão fácil. Eu estou nessa caminhada faz um tempinho. Minha decisão de ser escritora tem a idade do meu filho: 3 anos. E durante essa pequena jornada, já consegui aprender algumas coisas. Vou compartilhar contigo tudo que já consegui perceber até agora. Vamos?

Bem, se você você fizer esta pergunta para um grupo de escritores, é provável que muitos respondam com um riso maldoso. Talvez alguém te diga: “Ah, com certeza!” e você vai perceber um brilho de ironia. Talvez alguém seja muito sincero e apenas responda com um misto de pesar e resolução: “Não”.

Agora, quando eu me fiz essa pergunta antes de começar este texto, me surgiu uma outra dúvida: “Mas escrever o quê?”.

Sabe, acredito que uma cadeia de perguntas te leva a uma sequência de investigação mais produtiva. Mas, então, fechando este parênteses, voltamos à questão: escrever o quê?

Sim, porque, dependendo do que você escreve, você pode conseguir mais ou menos dinheiro.


Olha, eu não quero te iludir, dizendo que você vai ficar mais rico do que a J. K. Rolling. Nem ouso contar uma lorotinha e tentar vender para você um curso que vai te transformar no melhor escritor do universo. Não.

ser escritor dá dinheiro
J. K. Rowling: fortuna estimada em R$2.5 bilhões, segundo a Forbes.

O que eu quero dizer para você é o que aprendi até agora nessa minha pequena viagem. Dá pra viver de escrita, mas apenas se você se adequar a um mercado.

Puxa, chegamos em um tema complicado. Mercado é um conceito que desperta os sentimentos mais primitivos nas pessoas: há os que amam e os que odeiam. E eu também tenho os meus sentimentos por ele. Detesto. Mas o que é importante pra gente responder nossa questão inicial é outra coisa: o mercado determina o que é rentável ou não em termos de escrita. Opa, uma afirmação categórica. Você acredita que ela é completamente verdadeira?

Vejamos.

O glorioso mundo do marketing de conteúdo (ironia ligada)

Esta é uma forma de ganhar dinheiro sendo escritor. O marketing digital ou marketing de conteúdo é uma forma de escrita bem peculiar. Tudo nasceu com os primeiros blogs pessoais (#voltamundoblogueiro). Mas, com o tempo, as marcas e empresas em geral perceberam que quando a pessoa pesquisa algo no Google ela está com uma necessidade. Eles chamam essa necessidade de dor. A dor da persona. A persona é um personagem que corresponde ao consumidor médio. Eu sei que pode estar difícil de acompanhar. Depois você pode pesquisar melhor, ok?

A questão é que as marcas têm se dado conta, cada vez mais, de que produzir conteúdo de qualidade na internet pode ajudá-las a fortalecer a marca e se aproximar dos consumidores.

Eu trabalho com isso. Passo o dia escrevendo sobre beleza porque trabalho para uma marca de cosméticos.

A escrita corporativa, que é essa escrita que as empresas querem produzir, não é espontânea. E também não é totalmente solta. Existem regras.

Você deve produzir um conteúdo com base no SEO, que é, basicamente, uma otimização do seu conteúdo para mecanismos de busca. Usando essas técnicas, você aparece no Google e consegue tráfego gratuito para o blog.

As coisas são mais complicadas do que isso, porém, se você se especializar, vai poder ser escritor assim. Vai escrever para o robô do Google e, eventualmente, para alguma persona dolorida.

“É legal?”, você me pergunta. E eu te respondo: olha, é mais legal do que trabalhar com qualquer outra coisa que não seja escrever.

Aprendi com o Neil Gaiman que é melhor estar em um trabalho que te ajude a aprimorar sua escrita. Você já viu essa palestra? É bem motivadora:

Muito bonito, né? Sim… Só que às vezes dá raiva do robô, dá raiva das personas e, principalmente, do mercado. Por que as pessoas preferem ler sobre 2316546541 formas de pentear o cabelo? Por que elas não perguntam sobre outras coisas?

Às vezes eu fico bem chateada. Só que passa. Trabalhar com vendas era bem pior.

Jornalismo

A internet popularizou, com suas limitações, o acesso aos meios de comunicação que antes eram restritos aos grandes grupos empresariais do jornalismo. Hoje é mais fácil se dizer jornalista, mas é, ao mesmo tempo, difícil ser.

É um campo de atuação onde se pode e se deve escrever. É o campo da não ficção, dos fatos e da apuração dos fatos. Ou deveria ser.

O jornalismo de opinião cresce muito e também uma espécie estranha que nasce também dos mecanismos de busca: os trend topics, o assunto do momento.

Se você deseja escrever no jornalismo, sugiro que curse uma graduação na área e procure começar pela imprensa local. Jornais da cidade, do bairro ou da região onde você mora.

O jornalismo também possui uma janela interessante para quem quer escrever: a crônica. Hoje, na internet, ela se torna um território no qual é possível criar, mas as chances de se tornar um colunista em um grande jornal são, digamos, mais limitadas.

Escrevendo ficção

Agora, se você deseja escrever ficção de fato, mergulhar no mundo da escrita literária ou da escrita criativa (há quem considere duas classes distintas, já vamos tentar entender o porquê), é possível seguir pelo menos dois caminhos: a ficção comercial e a ficção não comercial.

Ficção comercial

Existe uma discussão insistente sobre a alta literatura e a baixa literatura. Prefiro compreender essa lógica por um viés diferente. Existe a literatura que vende alguma coisa, dadas as condições do mercado editorial brasileiro, e a literatura que vende muito menos.

O que seria, então, essa ficção comercial? Podemos falar de gêneros, como o YA atualmente, ou a fantasia, que já encontra sua saturação.

A literatura que se adéqua ao que o mercado vê como promissor é aquela dos cursos de escrita criativa, dos manuais como o Story, de Robert Mckee. É a literatura da jornada do herói, dos plot twists. É a literatura que encontra professores no cinema, nos roteiros da Netflix ou da Amazon Prime.

É uma literatura que pode trazer reflexões sobre a sociedade em que vivemos, mas essas reflexões precisam estar dosadas em uma estrutura narrativa que prenda o leitor com algumas ferramentas mais ou menos conhecidas, difundidas e utilizadas.

Existem muitos elementos de entretenimento que, às vezes, deixam a reflexão mais suavizada. Mas isso não é um dado absoluto. Existe a possibilidade da construção narrativa por camadas, como em Harry Potter, que produzem reflexões diferentes de acordo com a bagagem do leitor. E mesmo que este leitor leve quase nenhuma bagagem, ainda assim, ele é laçado pela estrutura narrativa que o mantém preso, como a identificação com os personagens ou as viradas na história.

Poderíamos falar sobre os efeitos dessa literatura no público leitor, que muitas vezes se vê muito acostumado a um tipo de enredo e se torna avesso a uma literatura mais provocativa, que foge aos padrões já determinados. Mas isso é tema pra outro texto.

Ficção não comercial

Aí chegamos a uma ficção não comercial. Essa literatura é a queridinha da academia, dos cânones, dos prêmios. É uma literatura que procura encontrar novos caminhos narrativos que saem do mapa do herói tradicional.

Ela é experimental e pode conter altas doses de reflexão. Por vezes causa estranhamento em relação à realidade que vivemos, ou melhor, à narrativa mais comum sobre esta realidade.

A narrativa não comercial dificilmente é sucesso de vendas. Mas pode acontecer. Talvez não aconteça tanto porque a preocupação com as determinações do mercado não é predominante. Aqui é o território da escrita literária, aquela em que o autor produz a sua obra com uma lógica própria.

Os manuais de escrita existem aqui também, como o de Assis Brasil. Há as oficinas, os saraus, as bibliotecas, os blogs… Existe também um público, mesmo que mais restrito.

A palavra-chave aqui é inovação. O que está fora do mapa? Quais caminhos possíveis a escrita ainda tem? É possível combinar referências e criar uma lógica narrativa incomum, que alcance uma perspectiva que vá de encontro com algo humano profundo, difícil de alcançar?

É bem prepotente essa literatura. Incomoda. Deixa o leitor pensativo e o transforma. Assim como transforma quem se propõe a escrever assim. Conseguir é outra história. Mas tudo bem. Sempre há vários poréns.

Afinal, o que é ser escritor?

No fim, o que posso perceber depois de refletir esse pouquinho é que existem formas de ser escritor e que elas não estão necessariamente atreladas ao dinheiro.

Quando se tem a necessidade de escrever, ela vai além do dinheiro. Pelo menos para os que persistem nesse caminho. É preciso entender a necessidade da escrita como uma necessidade de expressão. O que você quer expressar? O que deseja causar na pessoa que lê?

Enfim, escrever dá dinheiro? Pode dar, dependendo do que se escreve. Porém o mais importante é entender por que se escreve e construir sua escrita a partir dessa investigação.

Minha escrita vai além do que produzo em meu trabalho formal, aquele que dá certo dinheiro. Em meu espaço autoral, tenho mais liberdade de expressar o que compreendo e também o que ainda me escapa. Sigo nessa busca usando a escrita como ferramenta. Essa escrita não me dá dinheiro. Na verdade, uso meu dinheiro para investir nessa escrita autoral por meio de livros, cursos etc.

Preciso dizer que ser escritor ou escritora é uma profissão na qual o seu trabalho raramente é remunerado com um valor justo. E isso acontece, em maior ou menor grau, com todas as profissões no capitalismo.

Em entrevista para a Revista Livro & Café, a escritora Maria Valéria Rezende fala um pouco sobre a condição de escritor no Brasil, onde o pagamento pelo trabalho de criação é fracionado entre distribuidoras de livros, editoras e livrarias. O que fica para o autor ou autora é pouco, geralmente. Não é suficiente para pagar as contas. Então, o conselho de Valéria para quem quer escrever é esse:

“Sai da kitnet e leia muito. A gente pode ler em qualquer lugar, eu por exemplo, sou adepta da leitura digital, ando com o tablet na bolsa e qualquer sala de espera, ponto de ônibus, qualquer canto que eu tenha que esperar que aprontem meu café e meu sanduíche, tô lendo, então, dizer que não tem tempo para ler, me desculpe, é leseira, eu carrego uma biblioteca de milhares de livros na minha bolsa. Mas isso não basta, tem que ler o mundo, sai do seu mundo, porque a gente nasce numa situação muito restrita, saia da sua zona de conforto, vá conversar com outra gente, com outro mundo, vá trabalhar em alguma coisa outra, aliás, nem acho que é bom pro escritor ficar só no meio de livros e literatura, porque ele fica entre ele mesmo e o que os outros já escreveram, existe mais coisa no mundo pra ser escrita do que só isso [pausa]. O conselho que eu dou é esse: saia da kitnet, e não tenha pressa, não tenha pressa, e tenha outro serviço para ganhar a vida, porque com direito autoral só Jorge Amado e Paulo Coelho [risos]”.

Você tem um caminho diante de si que tem relação com o dinheiro, mas ele não é o norte. É preciso encontrar seu norte, encontrar uma fonte de renda e escrever. Você pode trabalhar com escrita para se manter ou não. Isso não precisa ser determinante. O essencial é: por que você escreve? O que você tem a dizer, afinal?

Com essa pergunta encerro este texto. A reflexão continua, de pergunta em pergunta.


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Mari Mendes
Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá. Escrever, para ela, é se amar.

1 comentário

  1. Muito esclarecedor o seu texto, Mari Mendes.
    Incluindo mais uma reflexão: o quanto de dinheiro pretende-se ganhar. Uma coisa é olhar para a Rowling e outra são os escritores que estão vivendo bem suas vidas lindas sem necessariamente almejar “carros, mansões, mulheres” (referência ao antigo desenho do Pica-Pau…kkk).
    Obrigada por compartilhar, abraço!

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