“Ensaio sobre a cegueira” e a cura para a doença que ninguém vê

Os homens são frágeis. De diversas formas nós, humanos, somos suscetíveis, vulneráveis e até mesmo quebradiços, e por isso dispusemos de nossa tão comemorada racionalidade para desenvolvermos formas de evitar que sejamos atingidos pelas intempéries da vida. A tecnologia, a psicanálise, a medicina… conscientes de nossa debilidade, poucas coisas nos atordoam mais do que o medo de um futuro incerto e da morte, quem sabe, resultante dele.

A “treva branca” que, misteriosamente, acomete os personagens de José Saramago em Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras, 2013), não os levaria à morte, como tantas outras pestes mortíferas que já surgiram na história do mundo, mas suscita neles todos os receios mais significativamente humanos, despindo-os dos artifícios que lhes dão – e a nós todos – diariamente a impressão de segurança e obrigando-os a aflorar sua substância enquanto humanos. Quando um momento de profunda crise surge, as máscaras caem e somos lançados ao mundo tal como somos e munidos somente daquilo em que, de fato, acreditamos.

Tudo começa com um homem que dirige seu carro no fluxo frenético da cidade grande. Quando o farol do cruzamento abre, os carros desejam avançar, mas são impedidos por ele que, ao ser tomado por uma cegueira abrupta, não move seu automóvel e tenta pedir ajuda em meio aos protestos dos demais condutores apressados. Logo surge um bom samaritano que se oferece para levá-lo até sua casa, e após deixar o cego em seu apartamento, parte, levando consigo o carro que não lhe pertencia.

Quem roubaria o carro de um cego?… Ou o pouco que tem um pobre? Ou o alimento de uma criança? E já nos primeiros momentos da história somos intimados a enxergar a doença que antecede a cegueira, e se mostraria ainda mais cruel na continuidade dos fatos: ainda que nossos olhos estejam sãos, quão cegas estão nossas almas? O narrador logo sugere a resposta:

“A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projeto confuso. Com o andar dos tempos, mais as atividades da convivência e as trocas genéticas, acabamos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca”.   

Antes mesmo da doença, quando o véu da normalidade nos envolve e embala nosso sono quente e aconchegante em nossas casas confortáveis com boa comida na mesa, há uma outra peste que se esgueira em cada esquina. Estamos perdendo nossa humanidade, pouco a pouco, e de vício em vício nos habituamos a ver o mundo de forma fria e individual, encontrando desculpas para nossos pequenos egoísmos e fechando os olhos para aquilo que independe das ideologias ou posições políticas. Não queremos dialogar. Não queremos enxergar o outro. “[…] a cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu.”

Rapidamente, assim como o bom samaritano, encontramos uma boa desculpa para furtar o carro de uma pessoa indefesa, pois quanto mais apáticos nos acostumamos a ser, menos nos impressionamos com a violência, injustiça e miséria recorrentemente apresentadas na televisão. Banalizamos o mal, não nos vemos como iguais, merecedores de respeito e afetuosidade, e, em decorrência disso, ao primeiro sinal de uma doença epidêmica desconhecida, nos vemos ameaçados ao potencial de uma total entrega à selvageria, à discórdia e ao caos, como nos mostra a trama.

Adiante no enredo, o cego busca a ajuda de um médico especialista, mas a cegueira branca passa a espalhar-se rapidamente atingindo a todos que estavam no consultório. Quando desperta no dia seguinte, o oftalmologista não pode ver nada além de luzes brancas difusas, semelhantes a um “mar de leite”, e constata que também foi infectado. Pouco a pouco todos são engolidos por aquela estranha cegueira branca, exceto sua esposa, que o acompanha por todo o tempo e curiosamente permanece enxergando.

Logo os primeiros doentes são isolados nas instalações de um manicômio desativado, que rapidamente se torna insuficiente para os novatos que chegam sem parar. O descaso e abandono completo por parte do poder público faz com que os alimentos sejam cada vez mais escassos e a imundice mais latente. Largados à própria sorte, os internos testemunham os atos mais horrendos quando um grupo de “cegos malvados” se aproveita da fragilidade da situação e, em posse de um revolver, passa a confiscar as poucas caixas de comida, exigindo bens valiosos e os corpos das mulheres como condição para que todos pudessem comer.


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A doença primeira, original, se manifesta no coração dos homens quando esses, seduzidos pelo seu orgulho e incentivados pelo desespero e medo, alienam sua consciência e abrem mão da empatia – que creio ser natural a todos nós, desde pequenos –, parte fundamental do que nos torna mais humanos. Em meio à visão de tanto desprezo e, até mesmo, crueldade, aqueles que ainda se permitem afetar pela dor dos outros observam, enlutados, o falecimento em vida daqueles que se esqueceram de como sentir compaixão. A “treva branca” escancara a todos essa grande perda.

E então, estaremos nós todos perdidos? Há esperança para um mundo cheio dos destroços de tanta cegueira?

Já bem sabiam os antigos filósofos como, curiosamente, a dor possui um poder binário, e, ao passo que tanto destrói, também transforma e fertiliza a alma humana, tal como o carvão que, eventualmente, se transforma em diamante depois de muito calor e pressão.

Em meio a tanto sofrimento, nossos cegos se reúnem em torno de um pequeno rádio de pilha com a intenção de ouvir as notícias do mundo exterior, mas enquanto os dedos trêmulos do velho “paciente da venda preta” tentavam sintonizar as estações de notícias, tropeçaram por acidente em uma canção que tocava, despreocupada, como se o mundo todo não tivesse se transformado em caos. Saudosa da felicidade que já não existia, a “rapariga dos óculos escuros” pede, “E um bocadinho de música […] Deixa estar só um bocadinho […]”, e então, embalados pela canção, se esquecem de tudo por um minuto, se refugiam nas suas memórias, dão um sorriso em comunhão.

A esposa do médico, a única naquele lugar esquecido que ainda enxerga, se doa por inteira para cuidar dos demais desprotegidos. Alimenta, limpa, organiza e, principalmente, oferece todas as carícias e apoio àqueles homens perdidos, tal como uma mãe que nina o filho doente. Tal como Atlas, carrega o mundo de todos eles em suas costas, certa de que tem força suficiente dentro de si para enxergar por todos. Essa mulher, tão humana, guia a todos em sua cegueira, os leva para sua própria casa quando conseguem fugir do confinamento e se deparam com uma cidade arrasada, luta para dar comida e proteção a todos.

É bem verdade que estamos todos nos cegando e que, quando tomados de assalto pela doença, muitos de nós são levados a mostrar o que há de mais desumano dentro de si. Contudo, aqueles que se permitem ser tocados e, como a esposa do médico, encontram força para olhar além de si e dividir a fé que possuem com os demais são potencialmente tão contagiosos quanto a própria cegueira.

A tão assustadora vulnerabilidade humana já citada é, muitas vezes, a medida que desperta em nós a necessidade de olhar para a fragilidade de nossos iguais e, através desse olhar, enxergamos neles a mesma substância humana que nos preenche, tomando consciência nesse processo de que todos somos importantes e, unidos, podemos, dos cacos, reconstruir nosso mundo. Por isso, a mais difícil tarefa talvez seja olhar para aqueles cegos da alma, que não nos enxergam, e em resposta, honrá-los como homens tal como são. 

“[…] Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”, e só poderemos fazer com que nossos cegos enxerguem se eles se permitirem tocar por aqueles que veem o mundo através de sua humanidade. A dor, a morte, o abandono, a cegueira… todos os horrores que nos assolam de forma gritante quando a doença chega, na realidade, estão escondidos há muito tempo nas esquinas escuras, nas justificativas distorcidas, na miséria humana como um todo, e tudo que fazem diante de uma contaminação sem explicações é ganhar as ruas a braçadas e nos desafiar a lutar e a lembrar que, se há tanto mal no mundo, igualmente e na mesma medida, podemos fazer tanto bem.

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Muriel Vieira
Graduanda em História pela Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Eflch/Unifesp), onde é integrante do Núcleo de Estudos Ibéricos e do Centro de Pesquisa em Probabilismo e Retórica Jurídica (CEPPRO), com ênfase em História Moderna e História da Justiça e do Direito. Atualmente, é pesquisadora do Núcleo Humanismo e Empresa (NUHEM) no ISE Business School.

1 comentário

  1. Nossa. Gostei muito!

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