O que vem sendo escrito sobre a Covid-19?

A pandemia de Covid-19 mudou as nossas vidas. Certamente não para melhor, como os mais otimistas acreditaram… A doença já ceifou muitas vidas ao redor do mundo, abalou a economia, vem aumentando ainda mais os abismos sociais, especialmente em países historicamente desiguais, como o Brasil, nos deixou ainda mais ansiosos, depressivos, isolados.

Evidentemente, todo esse impacto da Covid-19 já se manifesta nas artes e na literatura. Assim, muitos pensadores e escritores do mundo todo passaram a sistematizar suas impressões e angústias em livros e ensaios já disponíveis para leitura.

Na lista abaixo, selecionei algumas obras que podem nos ajudar a entender e enfrentar o atual momento. A maioria das publicações estão em formato e-Book, já que as editoras tiveram as atividades interrompidas por conta das medidas de isolamento social.

Construindo movimentos: Uma conversa em tempos de pandemia 

A editora Boitempo preparou uma coleção intitulada Pandemia Capital, uma série especial de e-books curtos, com reflexões de fôlego a preços acessíveis, que abordam a crise atual pela qual estamos passando e suas implicações na política, na psicologia, na economia e nas relações humanas. Um dos títulos traz a transcrição do histórico encontro virtual, realizado no auge da pandemia, entre as ativistas feministas de esquerda, Angela Davis e Naomi Klein, que conversaram sobre conjuntura, capitalismo, autoritarismo e desigualdade. Organizado pela Rising Majority, o encontro contou com a participação de Thenjiwe McHarris (Blackbird), Cindy Wiesner (Grassroots Global Justice), Maurice Mitchell (Working Families Party) e Loan Tran (Southern Vision Alliance). Muitos afirmaram que a Covid-19 seria democrática. Nessa conversa, as autoras argumentam que o foco da doença atinge especialmente os mais pobres e vulneráveis, como negros e mulheres, mesmo em países mais ricos, como os Estados Unidos. A atuação de líderes autoritários que utilizam a pandemia como manobra de garantia de poder também é tema no debate, com destaque para Viktor Orban, Jair Bolsonaro, Benjamin Netanyahu e Donald Trump. + Compre na Amazon

A cruel pedagogia do vírus

A cruel pedagogia do vírus, ensaio do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, outro volume da coleção Pandemia Capital, é uma didática argumentação sobre os desdobramentos da pandemia do coronavírus à luz da situação econômica e política dos últimos anos. Na obra, o autor reflete sobre as súbitas mudanças de hábitos impostas em todo o planeta, como o tempo dispensado aos filhos, a diminuição da poluição nas grandes cidades e a redução do consumo desenfreado. Segundo ele: “Mostra-se que só não há alternativas porque o sistema político democrático foi levado a deixar de discutir as alternativas”. Boaventura faz uma importante menção aos grupos mais afetados pela crise ao redor do mundo e credita ao capitalismo enquanto modelo social nossa inabilidade de fazer frente a ela. + Compre na Amazon

A arte da quarentena para principiantes

Quarto lançamento da coleção Pandemia Capital, A arte da quarentena para principiantes, do psicanalista Christian Dunker tematiza diferentes aspectos da vida dos brasileiros sob a pandemia de Covid-19. Da política bolsonarista aos transtornos psicológicos deflagrados pela “peste”, da cobertura de saúde pública à defesa da psicanálise como abordagem clínica, o autor destrincha, com olhar arguto, as angústias e os conflitos que afloram no confinamento. Mas é a vida cotidiana o fio comum dos artigos reunidos. Trata-se de um manual de sobrevivência que, ao nomear o sentido antropológico das modificações trazidas pelo vírus, nos incentiva a dar sentido ao novo tempo, distante da ideologia vulgar dos livros de autoajuda que seu título parodia. + Compre na Amazon

(Re)nascer em tempos de pandemia: Uma carta à Moana Mayalú

Em um texto tocante, que faz analogia entre o nascimento e um renascimento pós-pandemia, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) se dirige nesse livro à filha, que chega em meio aos duros tempos que estamos vivendo.
Pensando em qual mundo será oferecido à pequena Moana Mayalú, a autora reflete com delicadeza sobre questões de gênero, maternidade e sobre o impacto da pandemia na vida das mulheres negras e de periferia. Tudo isso sem perder o tom íntimo e afetuoso de quem escreve uma carta a esse ser tão amado e desejado: a sua bebê. E sem deixar de se questionar sobre onde estará a humanidade quando ela nascer. + Compre na Amazon

Leia mais: COVID-19: 10 palestras do TED para entender a pandemia

Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade

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O historiador israelense Yuval Noah Harari argumenta neste artigo que muitas pessoas culpam a globalização pela epidemia do coronavírus e afirmam que o único jeito de evitar novos surtos dessa natureza seria desglobalizar o mundo. Contudo, embora uma quarentena temporária seja essencial para deter esses surtos de doença, o isolacionismo prolongado entre as nações conduzirá ao colapso econômico sem oferecer qualquer proteção real contra doenças infecciosas. Muito pelo contrário. O verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, mas a cooperação. + Compre na Amazon


Tudo depende: O comportamento humano e as pandemias (capítulo do livro Contágio)

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Em Tudo depende, David Quammen demonstra como a disseminação de doenças está intimamente relacionada ao fato de que a população humana cresceu exponencialmente ao longo dos séculos. Ao consultar diversos especialistas, a conclusão é de que a próxima grande epidemia provavelmente seria causada por um vírus de RNA — como um coronavírus — e constituiria uma séria ameaça para os seres humanos. Nesse caso, o sucesso do controle dependeria de nosso comportamento — individual e coletivo. Este capítulo integra Contágio, livro assustadoramente antecipatório que investiga as infecções que, por meio do processo conhecido como “spillover”, começam no reino animal e migram para os humanos, causando as grandes pandemias da história. + Compre na Amazon

O amanhã não está à venda

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Há vários séculos que os povos indígenas do Brasil enfrentam bravamente ameaças que podem levá-los à aniquilação total e, diante de condições extremamente adversas, reinventam seu cotidiano e suas comunidades. Quando a pandemia da Covid-19 obriga o mundo a reconsiderar seu estilo de vida, o pensamento de Ailton Krenak emerge com lucidez e pertinência ainda mais impactantes. Em páginas de impressionante força e beleza, Krenak questiona a ideia de “volta à normalidade”, uma “normalidade” em que a humanidade quer se divorciar da natureza, devastar o planeta e cavar um fosso gigantesco de desigualdade entre povos e sociedades. Depois da terrível experiência pela qual o mundo está passando, será preciso trabalhar para que haja mudanças profundas e significativas no modo como vivemos. “Tem muita gente que suspendeu projetos e atividades. As pessoas acham que basta mudar o calendário. Quem está apenas adiando compromisso, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo no passado […]. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã.” 

Leia mais: 11 livros para ler durante a quarentena pelo Covid-19

Encantamento: sobre política de vida

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Enquanto o processo colonizador gera “sobras viventes”, seres descartáveis, alguns conseguem virar sobreviventes – que podem virar “supraviventes: aqueles capazes de driblar a condição de exclusão, afirmando a vida como uma política de construção de conexões entre o ser humano e a natureza. Em tempos de pandemia, este ensaio, escrito por Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino, levanta um conjunto de estratégias e táticas para que saibamos atuar nas batalhas árduas e constantes da guerra pelo encantamento do mundo, encantamento este que vem sendo ao longo do tempo trabalhado como uma gira política e poética que fala sobre outros modos de existir e de praticar o saber. Um manifesto a favor de uma “política de vida”, em contraponto à “política de morte” que temos visto em nossa sociedade. + Compre na Amazon

“Essa pandemia deixará dores antigas muito mais agudas em brasileiros e brasileiras. Entretanto, os gritos indignados podem, quem sabe, acordar toda a vizinhança. E de vizinhança em vizinhança, mais e mais gritos indignados podem derrubar aquilo que já está carcomido. Eu preciso te dizer que tudo pode ser diferente um dia. Nos resta fazer o nosso melhor para que o melhor chegue. Podem nos chamar de tolas, mas carregamos conosco esse brilho nos olhos, esse grito na garganta e a incrível capacidade de semear o amor no meio do ódio. Nós sonhamos!” (Talíria Petrone).


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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

1 comentário

  1. Quero ler todos!

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