Tolstói

Teria Tolstói algo a nos ensinar sobre a escrita da História?

Passados mais de 100 dias em isolamento social, chegamos à metade do ano e também à discussão da metade de Guerra e Paz em um clube do livro virtual que existe desde 2019. Já está confirmado que o livro não é dos mais fáceis de serem lidos. E como mencionamos a cada encontro, talvez teríamos deixado essa obra pelo caminho, não fossem o esforço e comprometimento coletivo de lê-la até o final, como um projeto do qual se orgulhar em 2020, durante esses tempos de isolamento.

Provavelmente, parte dessa dificuldade se deva ao fato de Tolstói não fazer questão de contar a história das guerras napoleônicas de forma linear. Quer dizer, há uma cronologia, pois a obra vai seguindo os anos em que a guerra se desenrola, mas a forma com que nos narra esse passar dos anos privilegia a exposição de vários personagens, em diferentes cenários, com motivações diversas, que vão ganhando vida e se desenvolvendo diante dos nossos olhos como em atos de uma peça de teatro, na qual uns saem de cena para que outros ocupem o primeiro plano. Em uma página, temos o príncipe Andrei olhando o céu que paira sobre si e se questionando sobre o sentido da existência, para na página seguinte sermos colocados diante das futilidades de uma sociedade de corte que se prepara para mais uma recepção de acolhida aos seus heróis em licença, ou que sai à caça e compete para ver quem é aquele que realizará um feito grandioso.

Um livro incômodo

Vida, morte, casamentos, festas, traições e as demais banalidades da vida vão se sucedendo no palco daqueles que se movimentam entre interlúdios de guerra e paz. Estamos diante de uma sucessão de atos, muitas vezes desconexos entre si, em que personagens fictícios e históricos interagem, borrando os limites que gostamos de atribuir à Literatura e à História. Há uma multiplicidade de pessoas, de ideias, de motivações, e até este momento, talvez possa dizer, o livro nos despertou mais perguntas do que respostas.

Será que Tolstói está afirmando que não há liberdade humana já que seus personagens parecem guiados pelo Fatalismo? Qual o papel da guerra nessa obra já que ela ora parece determinar um sentido para as ações humanas, invertendo ordens sociais e igualando a todos diante da iminência da morte, ora parece ser algo que não só mantém as hierarquias sociais prévias, como é destituída de qualquer sentido? Afinal, o que há de racional em homens matando outros de sua própria espécie? E o que há de verdadeiramente russo em Guerra e Paz? O que há de verdadeiramente russo em uma sociedade que parece completamente imersa em costumes franceses, em uma sociedade do improviso que quando colocada diante do novo, da guerra total inaugurada por Napoleão, tem como resposta um apego ao passado, às tradições, a uma forma de se portar que busca a grandiosidade do ato, o drama da existência? Seria isso russo? Ou seria a multiplicidade de opiniões, contraditórias entre si, de pessoas pouco práticas que carregam dentro de si desejos opostos, evidentemente não realizáveis, que se sucedem de forma desordenada e colidem em um evento comum?

Leia mais – Diário de leitura #1: Guerra e Paz, de Liev Tolstói

Somente quando foram vencidas as 600 páginas iniciais do livro que comecei a entender que, talvez, sua estrutura narrativa seja um exercício prático do posicionamento de Tolstói sobre a História. Ou, para falar melhor, contém um posicionamento de Tolstói contra uma determinada escrita da História. Mas o que quero dizer com isso? Vamos lembrar que Guerra e Paz é uma obra de meados do século XIX, momento em que homens não só enfrentaram as consequências da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas, como se empenharam em fazer da História uma ciência, com método assegurado para a construção de um conhecimento verdadeiro sobre o passado. E parece que é exatamente aqui que Tolstói mete a colher.

Não sou grande conhecedora de Tolstói, mas dentre as poucas obras que li, Guerra e Paz é o único romance em que existe a proposta de se contar um fato histórico. Li Anna Kariênina e A morte de Ivan Ilitch com o prazer de quem está diante de um excelente escritor. Já Guerra e Paz me desafia, me incomoda, me faz querer desistir a cada nova entrada em cena de Nicolai Rostóv, um dos hussardos na luta contra Napoleão, que mantém um amor idealizado pelo czar Alexandre I, e pouco se questiona sobre as razões dessa guerra. Não conseguia conciliar o grande criador de Anna Kariênina com aquele que agora tenho diante dos olhos e me apresenta personagens que pouco, ou nada, me agradam.

De qual História falamos?

E foi então que algo fez sentido. Historiadora que sou, formada na escola francesa (pós-revolucionária, diga-se de passagem) de historiografia, aprendi e ensinei que a História se faz com base em evidências, naqueles rastros deixados pelos homens do passado. Aos historiadores cabe o inglório papel de organizar o desconexo da vida, dar sentido a experiências vividas, a prestar o testemunho dos que não podem mais falar por si. Ou, como disse Michelet, um francês oitocentista e bem imerso nas lutas pós-revolucionárias, o historiador é aquele que garante a voz e a memória aos mortos. Vela por eles. E deve fazer isso por meio de um método científico que garanta a veracidade do conhecimento que produz sobre o passado, pois, do contrário, arrisca a fazer… Literatura.


Os historiadores do século XIX legaram aos seus sucessores a certeza de que era possível investigar leis que orientavam as sociedades humanas; estabelecer causas para eventos singulares. E, tributários de uma certa Filosofia da História, alguns ainda continuavam defendendo que a História possuía sentido, fosse a razão humana, fosse o progresso, fosse a conquista, nesta Terra, da felicidade e da igualdade, ou mesmo a realização plena da liberdade. Aqui e agora. Não em um futuro incerto e metafísico de realização do Reino dos Céus. Foi isso o que eu aprendi, e o que ensinei. E 2012 chegou. E com ele parte do mundo que eu conhecia implodiu. E talvez possa dizer que, para mim, este ano marcou o início de um fim, o início de um período catastrófico que pouco tem de progresso.

Leia mais – Guerra e Paz, de Tolstói: um livro para 2020

Desde então, me vi diante da elevação da mera opinião à categoria de certeza absoluta. Acredita-se que se sabe o que fatos foram, e são, ainda que tais fatos sejam criados por trás de telas e disparados de forma viral por robôs. Mesmo assim, parece que ainda nutro um apego às normativas da leitura e interpretação da História próprias ao século XIX. Sigo buscando causas que geram efeitos; procurando pela veracidade de fatos comprovadamente produzidos; sinto o tempo de forma linear e suporto o presente com a esperança de que o futuro será melhor. Bom, mas aí chegou 2020 para contradizer meus pressupostos de explicação do mundo e provar que é muito provável que não exista fundo do poço. Não sei vocês, mas eu nunca vivi um ano tão desafiador, e tão ruim!

Mas seguimos em busca de uma causa para isso. Queremos uma causa que nos permita a ilusão do controle sobre as circunstâncias, sobre as variáveis: seria esse vírus produzido num laboratório comunista para destruir a todos nós, capitalistas, neoliberais e ocidentais? Mas será que não foi culpa daquele cara que um dia visitou o mercado de animais selvagens e resolveu comer um morcego, tornando-se hospedeiro de um vírus letal? Mas e aquela pessoa que considerou que o vírus não era tão perigoso assim e achou que estava tudo bem furar o isolamento social para comprar coisas de que não precisava? E que lugar atribuir na cadeia de causas ao estadista que não tomou para si a responsabilidade de proteger a vida de seus eleitores e cidadãos? Qual é a causa que gerou o efeito, o evento que, sem aviso prévio, lançou alguns de nós a uma espécie de prisão domiciliar, obrigando-nos a, diariamente, confrontar a própria estupidez de ter considerado que essa crise pudesse tocar nossa humanidade? E se o mercado de animais selvagens não existisse? E se os chineses não tivessem tais hábitos alimentares? E se não estivéssemos destruindo o planeta por séculos? E se não tivéssemos concebido um mundo globalizado, rápido, de deslocamentos contínuos? E se não tivéssemos votado em quem não respeita nosso direito de permanecer vivo? E se… Mas a História, já diziam os sábios historiadores, não é feita de ses… É feita daquilo que foi, e o que aconteceu se deu de forma processual, em um desenrolar de eventos quase que predestinados a se produzirem de determinada maneira. Então como será que historiadores do futuro irão explicar e apresentar os fatos passados em 2020? E com quais métodos?

O legado dos Oitocentos

O fato é que o século XIX legou para seus sucessores esse tal de método científico associado a uma leitura que privilegiava o homem de ação, o grande estadista, cuja maestria era conduzir os homens pelas trilhas da História na realização de um bem comum. Podemos pensar em Hegel, na sua defesa da razão como o fio condutor da História, cujo ápice seria a consolidação do Estado; Marx com a ideia de que o progresso seria alcançado com o fim da luta de classes; em Ranke, com a afirmação de que era possível ao historiador chegar à verdade do fato e expô-lo tal qual acontecera. E não é por acaso que cito aqui pensadores da História alemães, já que os alemães, segundo Tolstói, eram homens confiantes no conhecimento que tinham da ciência, da verdade, das teorias que elaboravam. Teorias para o campo de batalha, mas também teorias da História. Filosofias da História. Os russos, por outro lado, diria Tolstói, demonstravam sua confiança em si mesmos justamente por não saberem de nada, não quererem saber de nada e por saberem que não poderiam conhecer nada de maneira absoluta.

Diante dessa fala, conseguimos, assim, situar melhor todas as imprecisões decisórias do exército russo no campo de batalha contra franceses que pareciam saber exatamente o que deveria ser feito; conseguimos entender a razão das multiplicidades de opiniões, de vertentes que explicavam a guerra e as ações que deveriam ser tomadas; e até mesmo explicar o que parece confusão, falta de uniformidade com que o jogo da vida se desenrolava. Ao escrever como pode ter sido o período das guerras napoleônicas, estaria Tolstói colocando diante de nós uma crítica à História que se faz de forma linear, contínua e que se explica por uma relação de causa e efeito, voltada para o culto da personalidade de um grande estadista? O que garante que Napoleão Bonaparte tenha existido, afinal? Os relatos que se criaram a seu respeito? Os documentos sobreviventes como evidências de sua mente estrategista? Ou foram suas ações racionalmente direcionadas que deram testemunho de sua existência? Seu desejo expansionista? Sua ambição de grandeza? É a Napoleão que devemos atribuir os destinos do mundo pós 1815, que nos rendeu a codificação das leis, uma historiografia científica e até mesmo o ideal de cidadania livre, igual e fraterna? Nesse caso, a quem atribuiremos os destinos de um mundo que passará a existir das nossas ruínas, quando formos contar essa história, nossa história? E o que dela farão os nossos, os seus descendentes? Afinal,

“Para nós, descendentes – que não somos historiadores, que não somos levados por um processo de pesquisa e, portanto, podemos contemplar eventos com um senso comum inobservado – um número incontável de causas se apresenta. Quanto mais fundo vamos na busca das causas, mais delas encontramos, e cada causa tomada singularmente ou em séries completas apresentam-se a nós como igualmente corretas, e igualmente falsas na sua insignificância em comparação com a enormidade do evento, e igualmente falsa em sua incapacidade (sem a participação de todas as outras causas coincidentes) de produzir o evento que aconteceu.” (Guerra e Paz, p. 604, edição inglesa Vintage Classics).

Talvez sejamos obrigados a resgatar a noção de que cada evento grandioso, transformador do destino da humanidade, não está atrelado a apenas uma causa, igualmente grandiosa, mas depende de cada uma e de todas as decisões tomadas individualmente, muitas delas concebidas de forma banal, por entre paredes, entre os atos.

Compre “Guerra e Paz”, de Tolstói, na Amazon

Imagem padrão
Rossana Pinheiro-Jones
Rossana Pinheiro-Jones é Doutora em História e Bacharel em Direito. Gosta de linhas, letras, gatos e café. Atualmente, vive em Londres com uma estante em busca de novos livros e ensina inglês para quem gosta de literatura.

Assine nossa newsletter

Toda semana um resumo com os principais conteúdos da revista em seu e-mail!

Deixe um comentário