“Todos caímos numa torrente”

Aquela necessidade de registrar alguns pensamento sobre literatura, propaganda e política. Talvez eu não consiga encaixar essas três ideias em algo que faça sentido em palavras, mas, aqui dentro tudo está fazendo muito sentido, pelo menos em alguns momentos. Sendo assim, é melhor fazer um registro em tópicos:

  • Estou muito angustiada com os rumos políticos deste Brasil.
  • Está cada vez mais difícil organizar o dia para ler um pouquinho e, quando chego em casa, são tantas as notícias ruins e mais o cansaço do trabalho que, no máximo, consigo ver uma série. Rita é muito bom!
  • Aflora por todos os lados os clubes de livros. Aqueles que você assina – e paga um valor alto – para ter mensalmente, uma “experiência” literária. O livro-surpresa vai chegar na sua casa, com alguns mimos – papeis em cortes bonitos, cores bonitos e usabilidade duvidosa. E você fica feliz. Se vai ler o livro e, assim, REALMENTE ter uma experiência literária não dá para saber. Mas há uma felicidade no pertencimento e os leitores também contribuem para essa ação.
  • Eu vi um vídeo na Marilena Chauí sobre o quanto não conseguimos sair desse clico que fere tanto. Mesmo ideias incríveis, no final, passam a ser um simples produto, que as pessoas vão comprar porque querem pertencer, querem tirar foto e postar no Instagram.
  • Fizeram isso com o feminismo, que agora é um produto. Semana passada comprei uma camiseta feminista na Renner.
  • E fazem isso com os livros. o livro deixa de ser a arte. O leitor deixa de ir em busca da arte e vai em busca do objeto – no clube de assinatura de livros; no canal do YouTube que ele assiste ou faz, na foto. Acho que ainda – que se salva – é a resenha, a crítica feita com texto – as palavras, que mesmo tão diferentes ainda se aproximam do que constitui o livro.
  • “Todos nós somos ladrões; todos cruéis; todos caímos numa torrente que passa a fluir indiferentemente por ela.” (Virginia Woolf, no conto Condolência)
  • A foto da Hilda (minha gata) é para trazer um pouco de leveza para este post, apesar de sua cara pensativa, como se me entendesse.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

2 Comments
  1. Você não tá sozinha nesse sentimento angustiante, Fran. O capitalismo é um Midas que transforma em mercadoria tudo que toca, mas ao contrário da lenda, essa aberração não mostra sinais de enfraquecimento. Esse Midas se alimenta de mercadorias tranquilamente e parece se fortalecer.
    Por vezes escrever sobre literatura para mim parece muito pouco, sou atormentada por uma sensação de impotência, sabe? Ao mesmo tempo, sei que é o que posso fazer agora, nas condições que eu tenho. Isso é resistir.
    Precisamos ser resistência e ter resiliência. Esse desgaste da democracia é um movimento amplo, na política mundial, não se restringe ao Brasil. Essa coisificação, essa conversão de tudo que é possível em mercadoria é um dos resultados desse movimento.
    Sigamos resistindo e lembrando que temos umas às outras.

    1. Oi, Mari!
      Sim, concordo com tudo que você escreveu, mas ando numa fase muito cansada, com aquela sensação terrível de nadar e morrer na praia, entretanto, ainda continuo nadando rs
      <3

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