Kathrine Switzer: 261 – O número da resistência

Já me encontrava totalmente rendido ao livro “Boston: A Mais Longa das Maratonas” (Editora Arquipélago, 2018), escrito pelo jornalista Sérgio Xavier Filho, após ter percorrido as primeiras cinquenta páginas (a sensação como corredor amador lendo o livro era, sim, a de ter percorrido páginas), quando fui apresentado à incrível história de Kathrine Switzer, a primeira mulher a participar da Maratona de Boston, em 1967, numa época em que apenas homens podiam participar de provas de rua nos EUA.

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A história de Kathrine com a corrida teve início em 1960, quando se preparava para entrar no Ensino Médio. Certo dia, decidiu contar ao pai que gostaria de se tornar cheerleader da escola, e o que obteve como resposta nunca mais saiu de sua mente e fez muito mais sentido para ela. O pai disse: “Você não quer ser uma cheerleader, torcedores torcem por outras pessoas. Você quer é que torçam por você. A vida é participar, não assistir.”

Kathrine passou a jogar hóquei pela equipe da escola, e a corrida começou a fazer parte de seu treino como uma forma de condicionar o corpo. Em pouco tempo, se encantou pelo esporte, mas não havia na época nenhuma equipe feminina de corrida. Passou, então, a treinar em um time masculino, onde conheceu seu treinador, Arnie Briggs.

Briggs não se cansava de contar seus feitos na Maratona de Boston, que até hoje é a mais almejada por corredores de todo o mundo. Além de ser uma das maratonas mais desafiadoras no quesito percurso, correr Boston já é em si uma consagração para o corredor amador. Não é como outras das principais provas no mundo, em que o pagamento de uma inscrição e, no máximo, a dificuldade de um sorteio sejam um obstáculo para estar lá. Boston só aceita os bons. É preciso a comprovação de ter corrido uma maratona com índices de tempos baixíssimos de acordo com a sua faixa etária. Muita gente passa uma vida perseguindo esse índice, e foi inclusive a busca dessa marca que fez o autor Sérgio Xavier escrever o livro.

Kathrine estava decidida a correr Boston. Quando contou ao seu treinador, lhe causou um susto tremendo. Briggs disse que mulheres eram fracas e frágeis e que não poderiam correr uma maratona. A reação de Kathrine foi treinar com mais afinco, e fez seu treinador garantir que, se ela suportasse os treinos, ele correria a prova ao seu lado. Para evitar a chance de uma recusa no ato da inscrição, colocou no formulário as iniciais de seu nome, K. V. Switzer.

Kathrine Switzer

Na manhã da prova, com um moletom cinza com capuz e o enorme número 261 no peito, largou sem ser importunada. Na altura do quilômetro 3, do ônibus de imprensa que trazia também o diretor da prova, Jock Semple, alguém notou que se tratava de uma mulher. Vestindo calça e gravata, Sample desceu correndo do ônibus e passou a correr atrás de Kathrine, ordenando que ela entregasse o número e se retirasse da prova. Quando já estava próximo de conseguir tocá-la, Tom Miller, seu namorado, de 115 kg, conseguiu empurrá-lo, enquanto seu treinador gritava: “Vá e corra com tudo”.

Kathrine Switzer
Kathrine Switzer com a sua medalha após completar a 121ª Maratona de Boston, em abril de 2017. (AP Photo/Elise Amendola).

Apenas em 1972, após o feito de Kathrine, as mulheres passaram a ser aceitas nas provas de rua dos EUA. Com mais de 35 maratonas corridas, Kathrine criou programas esportivos para mulheres em 27 países. O número 261 ainda é utilizado como um símbolo de resistência feminina nos EUA. Escreveu o livro Marathon Woman e ainda viaja o mundo promovendo corridas e caminhadas femininas. Desde 2011, integra o seleto grupo pertencente à calçada da fama das mulheres dos Estados Unidos.

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Ronie John

Ronie John vive em Sorocaba, é graduado em Letras Português/Inglês e atualmente leciona para o ensino fundamental. Tão apaixonado por café quanto por livros, já pensou em criar seu próprio blog “Livro & Cerveja”, mas desistiu após dormir durante as leituras em seus primeiros testes. Apreciador de biografias e obras que remetam aos “beats” e ao “rock and roll”, costuma escrever resenhas mais informais; algo como uma boa conversa sobre um bom livro.

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