Fomos sempre fascistas? Reflexões sobre a subjetividade patriarcal

A experiência atual com nosso tecido social, suas organizações, grupos, relações e continuamente nossa percepção de nós mesmos, nossos corpos, se encontra em profunda tensão e problemática intrincada. A ascensão vertiginosa de manifestações fascistas desafia nossas compreensões sobre a história e a própria noção de identidade de um povo. Cresce um corpo de massa com desejo de soberania, domínio e urrando em conjunto com bocas de tesão pelo poder a crença fanática de uma saída baseada no conservadorismo, opressão e violência: fomos sempre fascistas?

O fascismo enquanto fenômeno histórico e político é objeto de diferentes campos de saber e configura uma complexidade que implica também nossas compreensões sobre a subjetividade. A proposta aqui, distante de uma empreitada de fundamentações teóricas quanto a teses, é, através de um norteamento ético e estético, provocar nossas afetações e pensamentos sobre o autoritarismo e a obediência; a soberania e o servil.

O fascismo e a submissão

Numa condição de miséria famélica, é possível compreender a motivação daquele que rouba. Numa condição de ameaça e extermínio, é possível compreender a motivação daquele que se revolta. A questão desafiadora é justamente quando e porque isso não acontece, como a desobediência não toma a força de materialização de outras realidades de maneira maciça. Além disso, também a submissão que envolve os corpos a advogarem contra os próprios interesses: trabalhadores, negros, mulheres, LGBTs que se investem de um conservadorismo e nacionalismo contra grandes inimigos a serem enfrentados por heróis ou salvadores; inimigos que são por vezes seus semelhantes nessa dimensão identitária.

O grande Pai simbólico, ou a Lei, ou a Repressão que alinha e acaba com insurgências, determina o caminho moral reto e purifica seus filhos através da redenção destes e submissão: a lógica patriarcal com suas formações de soberania e suas produções de subjetividade são alguns dos tecidos fundamentais para a composição do fascismo. Neste sentido, a subjetividade é (re)produzida e (re)produtora deste próprio tecido institucional. Nós, nossos corpos, somos compostos de modo serializado e, numa experiência imediata de nossas consciências, tomamos aquilo que nos acontece como eventos naturais, universais, espontâneos ou de nossa própria vontade. Num olhar mais atento, nossos desejos, modos de perceber e sentir a vida não viriam de uma interioridade a priori pronta na realidade. A alienação mistifica as reais produções históricas e materiais dessas dimensões.

A manutenção e a expansão do fascismo

Numa época de vulnerabilidades sociais crescentes, a precarização da vida assola todas as experiências. Assim, as classes dominantes operarem instrumentos de manutenção e expansão de domínio não surpreendem uma análise crítica; mas as classes dominadas coadunarem com estes próprios instrumentos e modos é que configuram um desafio tanto para os saberes, que se debruçam sobre a condição humana, quanto às próprias práticas políticas e sociais. Como funcionam as subjetividades servis, submissas e que reproduzem estes modos dominantes com seus pares e próximos? A pergunta extrapola a possibilidade deste texto, mas abre passagem para algumas linhas.

Existe uma desconexão com a vida que habita os corpos na submissão, uma parada da manifestação de sua força frente a uma lei ou moralidade que a censura, obstrui. Acontece um rompimento com a própria força de existir que habita o corpo. Essa mesma dimensão que barra essa potência de vida estabelece os caminhos, normas e medidas que assegurariam a estes corpos uma plenitude, satisfação e realização muito maiores ou a posteriori. Assim, o submisso tem a crença, muito antes da consciência desta própria crença, que ele será restaurado por esta lei, que se ele seguir os protocolos de maneira dócil será garantida a sua gratificação ou plenitude ao final do caminho. Quando a própria existência material não comporta este mesmo funcionamento elege-se que a recompensa será após a morte, mas ainda assim recompensa; ou mesmo que uma espécie de justiça muito maior está a reger as questões humanas e que no final as contas serão acertadas.

Em períodos extremamente frágeis de crise política, econômica e social a emergência de uma ordem centralizadora e autoritária que resgataria um povo perdido e o limparia de seus opositores, desviantes, rebeldes e depravados é marcante no fascismo. Habita aí uma lógica patriarcal despótica e nas classes dominadas uma histórica submissão. Tudo passa por uma configuração patriarcal e judaico-cristã da autoridade, da soberania, do despotismo; mascarando de inúmeras formas o que revelaria a arbitrariedade do poder, acontece a legitimação desta verticalidade. Não é distante a percepção destes elementos nos modos como as tendências conservadoras estão embrenhadas com campos religiosos que as justificam e endossam.

Fascismo: uma realidade delirante e grotesca

A submissão é produzida também para acreditar neste poder. As classes dominadas, neste caminho, agem com policiamento sobre elas próprias, vigiando e punindo ao mesmo tempo que fantasiam sua ascensão e triunfo compensatório; emulam as classes dominantes. Na aceleração do fascismo esta lógica é intensificada e os lugares patriarcais e infantilizados ganham outro grau de magnitude; o pai com tesão pelas armas e o menino que brinca de atirar saem de uma cena imaginária para uma realidade delirante e grotesca.

A paranoia fascista violenta investe numa hierarquia dos corpos e extermínio da diferença, que é lida como perigosa de muitas maneiras. “Estão doutrinando nossas crianças”. “Querem que a mulher domine o homem”. “Estão criando ideologias sexuais”. “Estão manipulando as consciências”. Através de uma projeção que denuncia suas verdadeiras intenções, o extremo conservadorismo se autoriza na sua lógica de extermínio e purificação. O embate político e social, para além de suas dimensões macro, é também diretamente subjetivo e diz da nossa própria experiência vital. Nossos corpos estão em continuum neste campo inexoravelmente, com suas docilizações, crenças, superioridades e também nas suas desobediências, diferenças e revoltas.

Sugestões de leitura:

Psicologia das Massas e análise do Eu – Sigmund Freud
Psicologias das Massas e o fascismo – Wilhelm Reich
Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo – Felix Guattari

Imagem: Harry Sternberg, Fascism, 1942. 

Fernando Amorim

Graduado em psicologia e especialista em Análise Institucional e Esquizoanálise. Atua como psicólogo clínico e pesquisador com concentração nos campos de estudo sobre: subjetividade, psicopatologia e gênero por meio da Psicanálise e dos autores Deleuze e Guattari principalmente.

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