Um momento de horror em Dom Casmurro: “meia xícara só…”

Reler os clássicos é fundamental para compreendê-los em sua própria função de clássicos. Você percebeu um momento de horror em Dom Casmurro? 

Reler os clássicos é como um caminho eterno e bom. Sempre tive grandes experiências nos momentos em que decidi retirar da prateleira, mais uma vez, algum livro que me marcou de alguma forma. Porém, o motivo que voltei para Dom Casmurro é mais simples, mas também muito poético: estou lendo o livro com meus alunos do 9º ano.

Além da leitura como um todo estar fluindo muito bem, aquela Francine que leu Dom Casmurro pela primeira vez lá por 1998 é muito diferente da Francine de hoje. Ou seja, eu tinha uma lembrança da história, mas não me lembrava dos detalhes tão especiais que tornaram o livro um dos grandes clássicos da literatura.

Contém spoiler!

E se você está lendo este post e nunca leu Dom Casmurro ou se importa com spoiler, aconselho parar por aqui e voltar depois de ler. Sério. Ou, ainda, quem sabe uma passadinha neste post: 10 motivos para ler Machado de Assis? 🙂

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De Bentinho para Casmurro

Dom Casmurro, a princípio parece um garoto comum vivendo sua primeira história de amor, porém, a sua mente doentia, transforma o amor (talvez genuíno) que ele sentia por Capitu em puro ciúmes, egoísmo e cegueira. Ao longo da história, vamos percebendo essa mudança de Bentinho para Casmurro de uma forma sutil.

É brilhante o fato dos capítulos serem tão curtos e conseguirem transmitir tantos traços das personalidades das personagens, principalmente Bentinho, claro.

Capitu, a figura ambígua, de olhos de ressaca e dissimulada é o que restou daquele amor ingênuo que Bentinho sentia por Capitu. Não é ela assim, mas o olhar que Dom Casmurro tem sobre ela mora somente nesse espaço tão perigoso do ciúmes e da obsessão.

Então, quando, para Bentinho, não há dúvidas a respeito de quem é realmente o pai de seu filho, seu ódio é tanto que ele pensa em matar Capitu e o filho. Ao longo da passagem, a tensão – que já é forte – aumenta tanto que a chance do leitor arregalar os olhos ou por a mão no peito, como se estivesse assistindo a uma grande tragédia de horror no cinema é imensa.

Machado de Assis sabia muito bem o que estava fazendo. A mente alucinada de Bentinho estava em funcionamento e, rapidamente, a ideia de matar Capitu e o filho desaparece, no entanto, outra entra no lugar: o desejo de suicídio.

Um momento de horror em Dom Casmurro

Porém, o acaso também complementa esse momento de horror em Dom Casmurro.

Bentinho, envenena uma xícara de café e escuta o seu filho chamando “papai, papai…” Ele, com remorso por todos os pensamentos que está tendo sobre a sua vida, Capitu e o filho, fica em um estado difícil de ser definido, mas sabemos que em pleno juízo, Casmurro não está.

Um momento de horror em Dom Casmurro
O ator Michel Melamed como Dom Casmurro na série “Capitu”, de 2008.

A xícara, então envenenada, é oferecida à doce criança. E não há mais o que escrever. O leitor, se fisgado pelas nuances da obra, pelo personagem e sua construção que se dá em cada página, sentirá aquele frio na espinha.

Eu, como admirado da obra de Machado de Assis, só posso colocar aqui o trecho que me tirou o fôlego e torcer para que mais leitores me digam que também passaram por isso.

Que grande livro! Que grande obra!

CAPÍTULO CXXXVI
A XÍCARA DE CAFÉ

             O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até lá, não
tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que Catão, antes de
se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo; mas um tomo
truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a
ocupar aquele pouco tempo, e para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era
só imitá-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como
ele precisara dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer. Um dos males
da ignorância é não ter este remédio à última hora. Há muita gente que se mata sem
ele, e nobremente expira, mas estou que muita mais gente poria termo aos seus
dias, se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto,
querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser
encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a notícia nas gazetas
com a da cor das calças que eu então vestia, assentei de pô-lo novamente no seu
lugar, antes de beber o veneno.

             O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde
ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão
tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive
animo de despejar a substancia na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos
vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha
intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo
que me ia faltando; lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao
longe…
            “Acabemos com isto”, pensei.
            Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho
saíssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear
no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim
bradando:
            —Papai! papai!
Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente
esquecido, mas crê que foi belo e trágico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me
recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na
ponta dos pés, como que rendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia,
puxando-me:
            —Papai! papai!

CAPÍTULO CXXXVII
SEGUNDO IMPULSO

            Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui
escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo.
Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e
a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui;- mas vá
lá, diga-se tudo. Chamem me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou
contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel
se já tomara café.
             —Já, papai; vou à missa com mamãe.
             —Toma outra xícara, meia xícara só.
             —E papai?
             — Eu mando vir mais; anda, bebe!
             Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a
entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe
repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio… Mas não sei que senti que
me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a
cabeça do menino.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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