por Alex Sens
“Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver.” A comparação e o desejo incomum de ser um objeto essencialmente de valor, de ser não só a vera causa de grande parte da felicidade humana e de suas conquistas, mas também sinônimo de liberdade e segurança, em vez de um ser humano, passível de sofrimento e de desafios, obrigado a sentir e ser sobretudo racional, faz de Pequena Abelha uma narradora singular na literatura contemporânea, a começar por seu nome e por sua misteriosa história.
Segundo romance do inglês Chris Cleave, “Pequena Abelha” (272 páginas, editora Intrínseca, tradução de Maria Luiza Newlands) foi publicado originalmente no Reino Unido sob o título “The Other Hand”, ou “A Outra Mão”, e posteriormente nos Estados Unidos e Canadá como “Little Bee”. Ambos os títulos carregam um fardo diferente, seja de mistério, de curiosidade que apela ao leitor, ou simplesmente de causa. Por que uma menina africana se chama Pequena Abelha? Ou de quem é esta “outra mão”? Como o próprio livro avisa em sua quarta capa (com boa dose de marketing), trata-se de uma história especial, que não pode ser contada num breve resumo, nem explicada em detalhes, pois do contrário está ameaçada de perder o viço criativo de Cleave. Uma das maiores conquistas narrativas de “Pequena Abelha” está no suspense que se transporta de um capítulo para outro, embaraçando potencialmente o enredo, deixando perguntas sem respostas e lentamente dilacerando algumas dúvidas com choques inesperados e autoexplicativos.
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